Uma conversa necessária: “Não me toca, seu boboca!”

Gullar diz que a “arte existe porque a vida não basta”, concordamos com o poeta e acrescentamos que a arte nos ajuda a viver, pois mesmo no sofrimento e na dor, contribui para expurgar males e reinventar novos modos de viver como, por exemplo, por meio da literatura. Eis o sentimento inspirado pela leitura de “Não me toca, seu boboca”, livro sobre a prevenção de violência e abuso sexual na infância, escrito por Andrea Viviana Taubman com ilustraçōes de Thaís Linhares e publicado pela Editora Aletria em novembro de 2017.

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Logo no início, somos apresentados à Rita, mais conhecida como Ritoca, uma coelhinha que vai nos contar uma “história dificil de entender e muito mais difícil de falar…” A obra já acerta de primeira ao introduzir o tema com esta passagem, visto que as vítimas não conseguem falar sobre a violência sofrida tornando-se um segredo de infância, um segredo assassino destruidor de sonhos e de vidas, que irá assombrar adultos cuja revelação poderá ocorrer após muitos anos de terapias.

Ritoca nos conta sobre um sujeito – Tio Pipoca – bonzinho, engraçado, recém chegado ao bairro e que ficava rondando na pracinha onde a turma brincava, um verdadeiro lobo mal disfarçado de cordeiro. Ele ficou amigo de todos e os convidou para passarem à tarde em sua casa desde que não contassem nada para ninguém. A orelhinha de Ritoca já ficou de prontidão, esse tio é meio esquisitão. Então, enquanto a turma se divertia, o lobo mal disfarçado pediu a Ritoca para ajudá-lo, levando-a para longe de todos, e com sua mão peluda tocou na orelha, depois no pescoço, porém a coelhinha lembrou: “se for de um jeito suspeito, ninguém deve tocar na gente!” Por isso, ela começou a gritar, de forma que todo mundo ouvisse: NÃO ME TOCA, SEU BOBOCA!” E saiu correndo, seus amigos foram atrás dela porque não eram bobos nem nada… E o tio esquisitão foi pego com a boca no balão.

Escrito durante um longo período, a autora foi auxiliada por juízes, advogados e psicólogos e conseguiu com delicadeza tratar de um tema que reside nos porões de muitas famílias, independentemente de classe social: a violência e o abuso sexual de crianças. Quando notificados, os dados registram que os crimes são cometidos, na maioria dos casos, por pessoas próximas às crianças: um parente, um vizinho, um amigo querido, isto é, um sujeito de quem não se desconfia.

O livro acerta ao reconhecer como vítima quem sofre o abuso e não como culpada da situação criminal. Daí que o diálogo, a partir da história denúncia de Ritoca, é crucial para prevenir e proteger, mas também para ajudar a contar, a conversar sobre as cicatrizes deixadas na alma da infância.

Neste sentido, o livro auxilia pais, familiares, responsáveis, educadores, professores a orientarem os pequenos quanto às formas de violência e de abuso sexual, de modo lúdico, ensinando-nos a identificar as situações e a buscar orientações nos meios especializados no assunto, bem como a romper o silêncio.

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Outra assertiva em cheio foi a ideia de ilustrar os personagens como animais (coelhos, gatos, patos, etc.) remontando às fábulas e remetendo ao universo da fantasia, um modo de trazer um assunto doloroso e delicado por meio da ficção, visto que a intenção é proteger e não expor a vítima. Funcionou também o uso da rima, que pode ser potencializado pelos contadores de história, expresso no grito de Ritoca: “NÃO ME TOCA! SEU BOBOCA!”, tornando-se uma pequena catarse.

Com “Não me toca, seu boboca”, Andrea contribui para que crianças e adolescentes aprendam a defender-se de lobos maus vestidos de cordeiros, e possam escrever outras histórias livres de abusos ao compreenderem que ninguém pode tocá-los e que, se tentarem fazê-lo, devem berrar aos quatros cantos da Terra, tal qual a Ritoca: “NÃO ME TOCA, SEU BOBOCA!”, é um livro fundamental na proteção da infância e para a construção de um mundo mais saudável!

Convidamos vocês a conhecerem outras produções literárias de Andrea em: https://www.andreavivianataubman.com.br/copia-a-familia-de-marilia-1.

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